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Identificação

  • Identificação do Projecto: Eventos e subeventos em Caboverdiano [PTDC/CLE-LIN/103334/2008]
  • Grupo: Linguística Comparada
  • Responsável: Fernanda Pratas
  • Duração: 2010-2013
  • Financiamento: € 70.000
  • Entidade Financiadora: FCT-MCTES

Descrição

Este projecto tem dois objectivos principais:

A. Um enriquecimento do debate inter-linguístico, pelas revelações empíricas de uma língua ainda pouco estudada numa perspectiva formal.Propriedades específicas conferem ao caboverdiano um reconhecido interesse científico para os actuais estudos sobre a interpretação temporal das frases. Essas propriedades vêm sem dúvida reforçar aposição, ainda sujeita a intenso debate, de que a tradicional linha de divisão entre estados e eventos, por exemplo, não tem uma correspondência universal. Neste campo, também, novas questões têm sido levantadas: qual é a fonte desta variação inter-linguística? Poderá ela ser reduzida ao léxico? Será apenas morfológica? Ou deverá também estender-se à estrutura semântica? Como podemos ler em Hale 1996: "[.]queremos saber como é possível que haja uma gramática universal em paralelo com a quase inimaginável diversidade de línguas no mundo."

B. Um contributo significativo para a elaboração futura de gramáticas e instrumentos de trabalho destinados ao estudo e ensino do caboverdiano (língua ainda não oficial no seu país, Cabo Verde,em parte por acusações diversas precisamente quanto à ausência destes materiais científicos).

As diferentes estratégias das línguas para marcação de tempo têm sido alvo de abordagens linguísticas distintas (síntese em Binnick 1991). Na tradição generativista, que inicialmente se centrou nos estudos sintácticos (Chomsky 1957, 1965), a análise das relações temporais viria a ser por algum tempo uma área reservada à semântica formal (Bennett & Partee 1972, Bach 1981, e.o.). Nas últimas décadas, porém, numerosos trabalhos reflectem a proposta de que a estruturação temporal e aspectual das frases se situa na interface da sintaxe com a semântica (Giorgi & Pianesi 1997, Ramchand 1997, Demirdache & Uribe-Extebarria 2000, e.o.). As abordagens mais produtivas entre os recentes estudos sobre a sintaxe e a semântica da temporalidade têm em consideração as relações entre o aspecto lexical dos predicados (Aktionsart) e outros possíveis marcadores disponíveis em cada língua (morfemas funcionais, expressões adverbiais, modais, etc.). Assim, a leitura temporal é analisada como estando também dependente, entre outros factores, da estrutura interna dos eventos. Para este tipo de abordagem têm sido seguidas diversas propostas, como por exemplo a de Dowty 1979, segundo a qual as predicações, associadas aos tipos de situações descritas em Vendler 1967, podem ser decompostas nos predicados básicos Cause, Do e Become, bem como nas possíveis combinações destes. Em caboverdiano, língua crioula de base lexical portuguesa, um dos poucos fenómenos explorados nesta área pode ser sintetizado como se segue: a interpretação temporal parece ser condicionada pelo traço lexical de estatividade (Silva 1985, Baptista 2002, Pratas 2004, 2007). A partir de algumas formas verbais nuas (não flexionadas) em frases simples podemos de facto assumir que existe um contraste entre alguns verbos estativos, como sabe ( N sabe risposta. 'Eu sei a resposta.'), por um lado, e todos os verbos dinâmicos, por outro lado ( N kume pexe. 'Eu comi peixe'). A forma nua de sabe é interpretada como presente, a de kume como passado. No entanto, quando testamos os valores temporais no seio de contextos mais alargados, obtemos interpretações inesperadas.

Estas fragilidades nas análises linguísticas disponíveis para o caboverdiano constituem um forte incentivo para os objectivos científicos deste projecto - descrição exaustiva e análise rigorosa das seguintes interacções sintáctico-semânticas: a) estados consequentes e a sua associação a construções perfectivas; distinção entre predicados de indivíduo e predicados de estádio, por um lado, e entre "estados faseáveis" e "estados não faseáveis" (Cunha 2004), por outro; b) as imposições de certos predicados em orações matriz, como verbos perceptivos ou verbos de controlo, no que respeita à interpretação temporal das orações não finitas encaixadas; c) os contextos particulares em que uma leitura reflexiva é obtida sem uma expressão anafórica, e o possível envolvimento do subevento Become; d) a distribuição dos advérbios e a sua contribuição para a temporalidade das frases; e) as restrições de co-ocorrência e diferentes leituras de verbos modais (epistémica, necessidade/capacidade) e possíveis correlações com a sua posição na estrutura funcional da frase, relativamente aos marcadores de tempo e de aspecto.

Componentes: capitalizando sobre os trabalhos anteriores dos membros da equipa, o cumprimento destes objectivos envolve: 1) um intenso trabalho de recolha de dados junto de informantes caboverdianos, em Cabo Verde e em Lisboa, acompanhado da respectiva transcrição rigorosa e sistemática; 2) análise e organização dos dados; 3) formulação de propostas teóricas concretas que permitam dar conta dos aspectos sintácticos e semânticos dos resultados.

Resultado final: primeira base de dados digital sobre verbos em caboverdiano, disponibilizada para a comunidade científica, falantes de caboverdiano, professores e equipas responsáveis por políticas de língua.

Publicações

artigos / papers

  • (aceite / accepted) Costa, João & Fernanda Pratas. Embedded null subjects in Capeverdean. Journal of Linguistics.

atas de encontros / conference proceedings

  • Pratas, Fernanda (2011) 'Acreditar' não é 'saber': mais sobre estativos em caboverdiano. In Costa, Armanda, Isabel Falé & Pilar Barbosa (eds) Textos Seleccionados do XVI Encontro da Associação Portuguesa de Linguística. Lisbon: Colibri, pp. 521-533.
  • Pratas, Fernanda & Nina Hyams (2010) Introduction to the Acquisition of Finiteness in Capeverdean. In Costa, João, Ana Castro, Maria Lobo & Fernanda Pratas (eds) Language Acquisition and Development - Proceedings of GALA 2009. Cambridge: Cambridge Scholars Press, pp. 378-390.
  • Pratas, Fernanda (2010) Eventos e subeventos em Caboverdiano. In Ana Maria Brito, Fátima Silva, João Veloso & Alexandra Fiéis (eds) Textos Seleccionados do XXV Encontro da Associação Portuguesa de Linguística. Lisbon: Colibri, pp. 661-679.
  • Pratas, Fernanda (2010) States and Temporal Interpretation in Capeverdean. In Bok-Bennema, Reineke, Brigitte Kampers-Manhe & Bart Hollebrandse (eds) Romance Languages and Linguistic Theory 2008 - Selected papers from Going Romance Groningen 2008. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, pp. 215-231.
  • Pratas, Fernanda (2009) Aquisição da estrutura funcional em Caboverdiano. In Alexandra Fiéis & Maria Antónia Coutinho (eds) Textos Seleccionados do XXIV Encontro da Associação Portuguesa de Linguística. Lisbon: Colibri, pp. 367-381.
  • Costa, João & Fernanda Pratas (2008) Licenciar pro não significa ser uma língua pro-drop: evidência do Caboverdiano. In Sónia Frota & Ana Lúcia Santos (eds) Textos Seleccionados do XXIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística. Lisbon: Colibri, pp. 157-166.

Equipa

  • Fernanda Pratas (investigador responsável)
  • Ana Josefa Cardoso
  • João Costa
  • Luís Filipe Cunha
  • Alexandra Fiéis
  • Maria Lobo
  • Ana Maria Madeira
  • Helderyse Rendall